Estudo de Caso: Fundo Compra 70% de Indústria de Plásticos – Joinville
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ToggleEste estudo de caso é uma simulação baseada em situações e padrões reais de mercado. Empresas, personagens e valores foram adaptados para fins educacionais.
Quando um fundo de investimento compra empresa, a operação pode envolver muito mais do que o pagamento de um preço ao proprietário. Em alguns casos, parte do capital gera liquidez para o fundador, enquanto outra parte permanece no negócio para financiar crescimento.
Foi essa a estrutura adotada nesta simulação envolvendo uma indústria de plásticos de Joinville.
A empresa faturava aproximadamente R$ 52 milhões por ano, atendia clientes dos setores de alimentos, construção e bens de consumo e havia crescido durante mais de duas décadas sob o comando do fundador.
O negócio era lucrativo. O problema era outro.
A companhia precisava investir em automação, reforçar capital de giro, profissionalizar a gestão e reduzir a dependência do próprio fundador para sustentar uma nova etapa de crescimento.
Na simulação, um fundo de investimento decidiu adquirir 70% da companhia. Mas a operação não consistiu simplesmente em entregar dinheiro ao empresário e assumir o controle.
O fundo desembolsou R$ 28 milhões:
- R$ 10 milhões entraram no caixa da própria indústria, por meio de aumento de capital;
- R$ 18 milhões foram pagos ao fundador pela venda de parte de suas quotas;
- o fundador permaneceu com 30% da empresa.
A estrutura combinou, portanto, liquidez para o proprietário, capital novo para o negócio e uma nova governança para acelerar a próxima fase da companhia.
Tudo isso precisa ser analisado dentro do processo de compra de empresas, porque adquirir participação majoritária significa assumir não apenas o potencial de crescimento, mas também riscos operacionais, financeiros e societários.
Por que o fundador não vendeu 100%?
O empresário já havia construído patrimônio relevante dentro da companhia, mas ainda acreditava no potencial da indústria.
Ao mesmo tempo, não queria financiar sozinho a expansão necessária.
A empresa precisava modernizar equipamentos, melhorar produtividade e estruturar uma gestão menos dependente de decisões centralizadas.
A alternativa encontrada foi vender o controle e permanecer como sócio minoritário.
Na prática, o fundador realizava parte do patrimônio agora e continuava participando de uma eventual valorização futura.
Essa lógica também interessava ao fundo.
Se o antigo proprietário continuasse com 30%, ainda teria incentivo econômico para ajudar a companhia durante a transição e para contribuir com clientes, fornecedores e conhecimento acumulado.
O desafio era separar alinhamento de interesses de dependência excessiva.
O fundo não queria comprar uma empresa que continuasse funcionando apenas porque o fundador estava presente.
Os números antes da transação
Na simulação, a indústria apresentava aproximadamente:
Receita anual: R$ 52 milhões
EBITDA normalizado: R$ 6,2 milhões
Dívida financeira líquida: R$ 4 milhões
Funcionários: cerca de 180
Clientes relevantes: aproximadamente 45
A companhia possuía operação saudável, mas havia concentração em alguns clientes e equipamentos próximos do limite de produtividade em determinadas linhas.
O setor também exigia capacidade constante de investimento.
Segundo o Perfil 2025 da ABIPLAST, a indústria brasileira de transformação e reciclagem de plásticos reúne mais de 14 mil empresas e mantém investimentos relevantes em expansão fabril, tecnologia, reciclagem e novas soluções produtivas.
Esse contexto não provava que a empresa de Joinville seria uma boa aquisição.
Mas ajudava a explicar por que produtividade, máquinas, inovação e capacidade de investimento tinham peso importante na tese.
Como o fundo chegou aos 70%

A estrutura foi construída em duas etapas.
1. O fundo colocou R$ 10 milhões dentro da empresa
Antes do investimento, o valor ilustrativo do patrimônio da companhia foi negociado em:
R$ 30 milhões pré-money
O fundo então realizou um aporte primário de:
R$ 10 milhões
Depois desse aporte, a empresa passou a ter um valor pós-money de:
R$ 40 milhões
O fundo passou a deter 25% da companhia, enquanto o fundador ficou com 75%.
O ponto mais importante é que esses R$ 10 milhões não foram para o bolso do empresário.
Foram para a indústria.
2. O fundo comprou mais 45% do fundador
Em seguida, o fundo adquiriu outros 45 pontos percentuais da empresa por:
R$ 18 milhões
Ao final:
Fundo: 70%
Fundador: 30%
O desembolso total do investidor foi de:
R$ 28 milhões
Mas apenas R$ 18 milhões representavam liquidez direta para o vendedor.
Os outros R$ 10 milhões passaram a financiar o crescimento da companhia.
Para onde foram os R$ 10 milhões do aporte?
O plano ilustrativo previa:
R$ 4,5 milhões para automação e novos equipamentos;
R$ 2,5 milhões para reforço de capital de giro;
R$ 1,5 milhão para expansão comercial e novos mercados;
R$ 1 milhão para tecnologia, controles e sistemas de gestão;
R$ 500 mil como reserva de execução.
A tese não era simplesmente comprar 70% e esperar a empresa valorizar.
O fundo precisava criar condições para que a companhia produzisse mais resultado no futuro.
Essa é uma diferença relevante entre comprar uma participação de controle e adquirir uma empresa apenas para receber os lucros existentes.

O fundo analisou mais do que EBITDA
Os R$ 6,2 milhões de EBITDA eram importantes.
Mas não suficientes.
A diligência avaliou concentração de clientes, contratos, fornecedores de matéria-prima, necessidade de manutenção, idade do parque fabril, capital de giro, passivos, qualidade das informações financeiras e dependência do fundador.
Também procurou responder uma pergunta:
quanto do resultado atual continuaria existindo se a empresa passasse a operar com outra governança?
Essa lógica está no centro daquilo que investidores analisam antes de comprar uma empresa.
Em uma indústria, máquinas, estoque e faturamento podem ser visíveis. Os riscos que destroem retorno frequentemente estão em outra camada: concentração comercial, margens pouco defensáveis, necessidade futura de capital e processos excessivamente dependentes de determinadas pessoas.
Por isso, analisar como comprar uma indústria de médio porte exige compreender tanto os ativos existentes quanto o capital necessário para mantê-los competitivos.
Comprar 70% também significava mudar a governança
O fundo não estava realizando apenas uma aplicação financeira passiva.
Ele assumiria o controle.
A própria regulamentação dos Fundos de Investimento em Participações prevê participação no processo decisório das sociedades investidas, com influência efetiva sobre política estratégica e gestão. O princípio aparece no Anexo Normativo IV da Resolução CVM 175.
Na simulação, foi criado um conselho com cinco integrantes:
- três indicados pelo fundo;
- dois ligados ao fundador.
O fundador permaneceu na operação durante a transição, mas decisões relevantes deixaram de depender exclusivamente dele.
Endividamento acima de determinados limites, novos investimentos relevantes, aquisições, venda de ativos importantes e política de dividendos passaram a seguir regras previamente definidas.
Esse é um dos motivos pelos quais as cláusulas de um contrato de investimento podem ser tão importantes quanto o percentual adquirido.
Controle econômico não depende apenas de possuir 70% no contrato social.
Depende também de quem decide o quê depois do fechamento.
Por que o fundo deixou 30% com o fundador?
A participação remanescente funcionava como alinhamento.
Se a companhia crescesse e passasse a valer mais, o fundador também ganharia.
Imagine, apenas para visualizar a lógica, que anos depois o patrimônio da empresa fosse avaliado em R$ 70 milhões.
Os 30% restantes representariam:
R$ 21 milhões
Isso não é uma projeção do caso nem uma promessa de retorno.
Serve apenas para mostrar por que um vendedor pode aceitar realizar parte do patrimônio agora e continuar exposto ao crescimento futuro.
Para o fundo, a permanência do fundador também reduzia parte do risco da transição.
Mas havia um limite.
O objetivo era usar seu conhecimento — não perpetuar a dependência da empresa em relação a ele.
O que aconteceu depois do investimento?

Nos primeiros 24 meses da simulação, a prioridade foi executar o plano aprovado na transação.
A empresa automatizou duas linhas produtivas, reorganizou compras, fortaleceu controles gerenciais e contratou um executivo para assumir gradualmente responsabilidades antes concentradas no fundador.
A base de clientes também começou a ficar menos concentrada.
Ao final do período ilustrativo:
Receita anual: aproximadamente R$ 65 milhões
EBITDA normalizado: aproximadamente R$ 8 milhões
A evolução não deve ser atribuída exclusivamente ao fundo.
Mercado, execução da equipe, investimentos, capacidade comercial e condições econômicas também interferem no resultado.
A conclusão permitida é mais cautelosa:
o capital e a nova governança criaram condições para executar mudanças que a empresa vinha adiando.
Três riscos poderiam fazer a operação fracassar
1. O fundo pagar por crescimento que ainda não existia.
Se o preço já incorporasse integralmente os resultados futuros esperados, pouco valor sobraria mesmo que o plano funcionasse.
2. O fundador sair rápido demais.
Relacionamentos, conhecimento técnico e decisões comerciais poderiam estar mais concentrados nele do que a diligência indicava.
3. A governança gerar conflito em vez de profissionalização.
Ter um sócio com 30% e outro com 70% exige regras claras. Divergências sobre investimentos, dividendos, endividamento ou uma futura venda poderiam prejudicar a própria companhia.
O que este caso não permite concluir
Os valores apresentados — R$ 30 milhões pré-money, R$ 10 milhões de aporte, R$ 18 milhões pagos ao fundador e participação final de 70% — pertencem exclusivamente a esta simulação editorial.
Eles não representam múltiplos típicos para indústrias de plásticos nem condições usuais de fundos de investimento no Brasil.
Também não significam que manter o fundador com 30% seja sempre melhor do que adquirir 100%.
Cada transação depende de valuation, necessidade de capital, sucessão, governança, riscos, estratégia do investidor e objetivos do empresário.
A conclusão é mais específica:
uma aquisição majoritária pode combinar liquidez para o fundador e capital novo para a empresa, permitindo que vendedor e investidor continuem expostos à criação de valor — desde que preço, governança e plano de crescimento estejam alinhados.
Próximo passo: separar quanto vai para o empresário e quanto vai para a empresa
Quando um fundo apresenta uma proposta de investimento, olhar apenas para o valor total pode produzir uma interpretação errada.
Neste caso ilustrativo, o cheque era de R$ 28 milhões.
Mas o fundador não recebeu R$ 28 milhões.
Recebeu R$ 18 milhões.
Os outros R$ 10 milhões permaneceram na companhia, financiando aquilo que deveria criar a próxima fase de valor.
Por isso, diante de uma proposta de participação, uma pergunta especialmente útil é:
quanto do dinheiro compra minhas quotas — e quanto realmente entra na empresa para fazê-la crescer?
Essa separação ajuda a entender liquidez, diluição, participação remanescente e potencial futuro.
No caso da indústria de Joinville, os 70% adquiridos pelo fundo representavam mais do que uma mudança de proprietário.
Representavam uma combinação de saída parcial do fundador, capitalização da empresa e transferência do controle para uma nova estrutura de governança.